Reflexões sobre o Ensino Superior em Moçambique (Parte I)

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Dr. Edgar Cambaza

Director de Pesquisa e Extensão

ecambaza@unisced.edu.mz

Livro

Referência: Cambaza, E. M. (2025). Reflexões sobre o Ensino Superior em Moçambique. Chiado Books. https://doi.org/10.5281/zenodo.14592044

Apresentação

O ensino superior desempenha um papel fundamental na formação de cidadãos críticos e inovadores. Em Moçambique, a educação superior expandiu-se significativamente desde a independência, acompanhando as transformações políticas, económicas e tecnológicas do país (Langa, 2014). Este ensaio analisa as principais tendências e desafios enfrentados pelo sector do ensino superior, destacando aspectos como a inclusão, a expansão das universidades, o papel do sector privado, a internacionalização e o impacto da digitalização. 

Inclusão e equidade no ensino superior

A inclusão no ensino superior moçambicano tem sido um desafio, exigindo a implementação de políticas adaptadas à realidade sociocultural do país. Dados estatísticos (Cumaio et al., 2016) revelam disparidades significativas na distribuição de estudantes por género e área do conhecimento (Figura 1). Além disso, a falta de harmonização curricular e a competência limitada de docentes na inclusão são desafios persistentes. Contudo, as tecnologias digitais emergem como ferramentas essenciais para superar barreiras geográficas e económicas, promovendo maior equidade no acesso ao ensino superior (Langher et al., 2016). 

Expansão das Universidades e o Papel do Sector Privado

A expansão do ensino superior, denominada "uniboom", está directamente relacionada com a crescente demanda por qualificação académica e o aumento do número de instituições de ensino superior privadas. A Figura 2 ilustra o crescimento exponencial das universidades em Moçambique nas últimas décadas. Embora as universidades públicas ainda sejam percebidas como referências de qualidade, o sector privado tem investido fortemente na educação superior, alinhando-se às tendências internacionais de padronização e mercantilização do conhecimento (Langa, 2014). 

Tendências

A internacionalização do ensino superior em Moçambique tem sido impulsionada pela globalização e pelo avanço das tecnologias da informação e comunicação (TIC). A cooperação com países lusófonos, especialmente Portugal e Brasil, fortalece as oportunidades de mobilidade académica, possibilitando a troca de conhecimentos e experiências (Marques et al., 2020). Entretanto, a barreira linguística limita o intercâmbio com países vizinhos de língua inglesa e francesa, exigindo estratégias para ampliar a inclusão de estudantes estrangeiros.

O ensino superior caminha para uma crescente digitalização, com maior adopção de plataformas de aprendizagem online e híbrida. Este movimento é impulsionado pela necessidade de flexibilização do acesso e redução de custos operacionais. A adopção da inteligência artificial e de chatbots educacionais também desafia os modelos tradicionais de ensino e aprendizagem, exigindo uma revisão das metodologias pedagógicas (Kurian et al., 2023).

Apesar do crescimento do sector, a qualidade do ensino superior em Moçambique tem sido motivo de preocupação (Mouzinho et al., 2020). A massificação das instituições e a diluição da massa crítica de docentes qualificados impactam negativamente o padrão académico. Ademais, o fenómeno da fraude académica, impulsionado pelo acesso irrestrito às novas tecnologias, desafia as instituições a adoptarem estratégias eficazes de controlo e avaliação (Zachek, 2020).

Conclusão

O ensino superior em Moçambique está num processo dinâmico de transformação, marcado pela expansão das universidades, avanços na inclusão, crescimento do sector privado e incorporação de novas tecnologias. Contudo, desafios como a qualidade do ensino, a fraude académica e a necessidade de maior alinhamento internacional persistem. É essencial que as políticas educacionais sejam continuamente aprimoradas para garantir um desenvolvimento sustentável e equitativo do sector.

Referências

Cumaio, G., António, E., & Baptista, A. (2016). Dados Estatísticos sobre o Ensino Superior, 2015. Direcção Nacional do Ensino Superior, Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Tecnico Profissional.

Kurian, N., James, D., Varghese, V. S., Cherian, J. M., & Varghese, K. G. (2023). Artificial intelligence in scientific publications. The Journal of the American Dental Association, 154(12), 1041-1043. https://doi.org/10.1016/j.adaj.2023.03.015

Langa, P. V. (2014). Alguns desafios do ensino superior em Moçambique: do conhecimento experiencial à necessidade de produção de conhecimento científico. In Desafios para Moçambique 2014 (Vol. 2014, pp. 365-395). IESE. https://www.iese.ac.mz/lib/publication/livros/des2014/IESE-Desafios2014_13_EnsSup.pdf

Langher, V., Ricci, M. E., Propersi, F., Glumbic, N., & Caputo, A. (2016). Inclusion in Mozambique: a case study on a cooperative learning intervention / La inclusión en Mozambique: un estudio de casos sobre una intervención de aprendizaje cooperativo. Cultura y Educación, 28(1), 42-71. https://doi.org/10.1080/11356405.2015.1120447

Marques, M., Zapp, M., & Powell, J. J. (2020). Europeanizing universities: expanding and consolidating networks of the erasmus mundus joint master degree programme (2004–2017). Higher Education Policy, 1-23.

Mouzinho, M., Celso, M. M., & Ricardo, S. (2020). The education sector in Mozambique: From access to epistemic quality in primary education (978-92-9256-887-0). (WIDER Working Paper 2020/130, Issue. https://wider.unu.edu/sites/default/files/Publications/Working-paper/PDF/wp2020-130.pdf

Zachek, A. (2020). The history, evolution, and trends of academic dishonesty: a literature review. The Nebraska Educator, 53, 105-120. https://doi.org/10.32873/unl.dc.ne006